Dia 08 de março de 1989, Dia Internacional da Mulher. Havia de ser mesmo um dia especial para marcar o surgimento do Movimento de Mulheres em São Gonçalo, quando se reuniram mulheres gonçalenses no Colégio Municipal Castelo Branco para refletirem sobre a condição das mulheres e todos os encargos que as acometiam pelo simples fato de terem nascido mulher. Esta discussão foi estimulada após terem visto um filme que contava a história do cotidiano das mulheres que viviam no nordeste. Apesar da região nordeste ficar longe geograficamente de São Gonçalo, as histórias são muito parecidas com as das mulheres que vivem aqui: falta de atendimento médico adequado, desigualdade salarial em relação aos homens, dupla jornada de trabalho, violência doméstica, meninas grávidas prematuramente, discriminação racial, entre outros.

A inquietação, o incômodo, a indignação e o sentimento de que era preciso fazer mais do que se conformar com esta situação começou a aflorar no coração de algumas mulheres presentes neste encontro. Mas, quem eram essas mulheres? Eram mulheres que perceberam já terem vivenciado em algum momento de suas vidas o desconforto de ter nascido mulher e não de ser mulher pois, como diz a gloriosa Simone de Beavoir, “não se nasce mulher, torna-se mulher”. Refletiram que a educação destinada às mulheres tinha sua origem marcada pela naturalização da cultura patriarcal onde o único domínio permitido às mulheres era o domínio do privado: educação dos filhos, o trabalho doméstico, o cuidado com o marido. Afinal, quem nunca ouviu a seguinte frase, que a mulher é a rainha do lar? Este foi, então, o legado destinado às mulheres ao longo da história. E aos homens, o que era culturalmente destinado? O mundo público. Ao homem destinava o sustento do lar, o trabalho fora de casa. Nenhum problema doméstico poderia ser partilhado com ele, afinal o lar não possuía sua rainha? Foi essa separação entre o mundo do privado e do público que posicionou a mulher a uma condição subalterna. As Mulheres, diziam os homens, não podem trabalhar fora de casa, quem cuidaria das crianças? Mulher, pensavam, tem cabeça fraca, como poderia trabalhar tal qual os homens? Afinal os homens têm mais neurônios que as mulheres. Mulher, pensavam eles, não podem trabalhar fora de casa. Quem ficaria responsável pela arrumação da casa, pela feitura da comida, dentre outras coisas, em que (não sei onde vem a lógica) é de sua competência “natural”.
Porém, para surpresa geral da nação, as mulheres resolveram comprar a briga. Aceitaram o desafio de trabalhar fora sem deixar de assumir aquele papel que diziam ser de sua natureza. Começa aí a sua dupla/tripla jornada: acordar cedo, colocar o filho na escola, ir para o trabalho (fora de casa), pegar o filho na escola, fazer a lição da escola com o filho, arrumar a casa, fazer comida, lavar e passar roupa, esperar o marido chegar do trabalho, dormir. Amanhã, tudo de novo. Quem da platéia se identificou com esta rotina? Para suavizar esta romaria, algumas mulheres que possuem algum recurso financeiro contratam outras mulheres para fazer o trabalho doméstico por elas, confirmando a ideologia de que o privado está vinculado a sua condição de mulher. Bem, essa história – a divisão do trabalho no âmbito doméstico – é uma outra luta das mulheres que lentamente está se modificando. Alguns homens já compartilham as mulheres nas tarefas domésticas.

Toda essa problemática foi discutida neste Encontro do dia 08 de março de 1989, porém, pensavam as mulheres, o que podemos fazer para tentar modificar este quadro? Uma das primeiras decisões foi a necessidade de marcar reuniões regulares para o amadurecimento das questões e traçar metas/objetivos. Nas reuniões, surgiram sugestões para a definição de estratégias de ação e, quando o grupo se deu conta, havia surgido o movimento das mulheres que residem em SG, reconhecido legalmente como Movimento de Mulheres em São Gonçalo no ano de 1991. Seria injusto terminar aqui a história do surgimento do MMSG sem destacar as heroínas que tornaram possível o surgimento desta organização de defesa dos direitos humanos das mulheres: Adília Brandão da Silva, Eliete Soares Cunha, Emília Cândido Rocha, Glória Diniz, Ilva Reis Ferreira, Luiza Bandeira, Lurdes Brasil, Maria de Lurdes Assunção da Costa, Maria Emília, Maria Helena dos Santos, Maria Lucélia R. de Freitas, Maria Madalena Rocha da Costa, Marisa Chaves de Souza, Tânia Lúcia Lessa, Vera Terezinha Fagundes, Wandinéia Sales Ribeiro e Zaira Costa.