Pela
dignidade das mulheres e respeito aos direitos humanos
O
presidente Barack Obama está perdendo a guerra dele. Na campanha,
ele culpava George Bush por ter dispersado esforços com a guerra
do Iraque e dizia que o fundamental era o Afeganistão. Dias atrás,
quando o presidente Hamid Karzai aprovou a lei do estupro, para
fazer concessões aos eleitores conservadores, a verdadeira guerra
estava começando a ser perdida.
Uma
sociedade não se salva sem as suas mulheres. Elas são condutoras
do progresso. Não sou eu que digo, são os estudos que mostram que
mães com maior escolaridade garantem que a futura geração estude
mais. Pela educação, o país, como um todo, evolui. No Afeganistão,
80% das mulheres são analfabetas. Estavam proibidas de estudar durante
o regime Talibã e continuam ameaçadas e encurraladas no regime que
transformaria o Afeganistão. Há uma constatação generalizada, diz
o "New York Times", "do Banco Mundial, ao Comando
Geral das Forças Armadas Americanas às instituições beneficentes
como Care", que focar a mulher é a forma mais efetiva de combater
a pobreza, o extremismo, a violência.
"No
Afeganistão, o sacrifício no jogo político é feito pelas mulheres
e as crianças", disse a deputada Fawzia Koofi à CNN. O casamento
forçado de meninas é prática normal no país. Elas são a moeda de
troca em disputas e em cobranças de dívidas. Em torno de 60% das
meninas são obrigadas a se casar antes de 16 anos e o alto índice
de gravidez entre 10 e 14 anos explica a elevada mortalidade materna,
informa a revista inglesa "Economist".
Não
sem as mulheres. Não há modernização sem elas. Por isso foi tão
desanimador que Karzai até justificasse a lei que permite que os
maridos estuprem suas mulheres ou as deixem morrer de fome, caso
não consintam com o sexo. É uma lei destinada a uma minoria étnica
do país, mas os sinais de que as mulheres, de novo, estão sendo
soterradas no país são cada vez mais fortes.
As
fotos que os jornais brasileiros trouxeram nas edições de sexta-feira
eram animadoras, de um certo ponto de vista. Apesar da intimidação
dos talibãs, do risco de morte inclusive, elas, usando suas burcas,
fizeram fila para votar. O comparecimento geral foi bem menor porque
os grupos radicais estão cada vez mais fortes. Mesmo assim, era
possível registrar depoimentos como o da afegã Bibi Robiah a Lourival
Santanna, do "Estado de S. Paulo": "Estamos com medo,
mas é nossa obrigação votar, por nosso país, para nossos filhos
viverem em paz e terem emprego."
As
mulheres no poder não são iguais entre si. A atual secretária de
Estado dos EUA, Hillary Clinton, dá muito mais relevo à questão
de gênero, em sua agenda, do que sua antecessora, Condoleezza Rice.
Criou no Departamento de Estado o cargo de Embaixadora da mulher
e nomeou para o posto sua ex-chefe de gabinete. Em todas as viagens
tem dedicado tempo, feito gestos, discursos e reuniões sobre os
vários problemas dessa inquietante questão. Na África, fez um forte
discurso condenando a prática do estupro coletivo. Todo esse esforço
será em vão se aceitarem a lei aprovada no parlamento afegão, e
que teve até votos de algumas das mulheres parlamentares conservadoras.
Karzai disse que a lei foi mal interpretada no Ocidente. Há como
interpretar errado o direito dado a um homem de estuprar a mulher?
Isso não precisa de tradução. É imundo em qualquer língua, em qualquer
cultura.
Hillary
explicou assim sua insistência no tema: "A democracia não significa
nada se metade das pessoas não pode votar, ou se seus votos não
contam, ou se sua taxa de alfabetização é tão baixa que seu voto
pode ser posto em questão. É por isso que quando viajo eu falo sobre
os direitos da mulher, eu encontro mulheres ativistas, eu levanto
as preocupações das mulheres nas conversas com os líderes com os
quais eu converso."
Esse
não é um assunto lateral. Tem sido posto à parte tempo demais. Mas
os indicadores das mulheres falam muito sobre uma sociedade, e o
grau de avanço a que se chegou. "Eu tendo a acreditar que a
transformação do papel da mulher na sociedade é o último grande
impedimento ao progresso universal", disse Hillary.
A
Índia é uma democracia há mais de 60 anos, com regularidade de eleições,
e hoje consta em todas as listas de candidatas à potência. Hillary
lembra, no entanto, que sem o empowerment (aumento do poder) das
mulheres, a transformação não acontecerá. É até pior do que a secretária
de Estado está dizendo. Na Índia, hoje pólo de alta tecnologia,
o índice de analfabetismo das mulheres é de mais de 40%. Não, sem
as mulheres, a Índia não será potência mundial.
No
especial que o "NYT" tem publicado nos últimos dias, "Salvando
as mulheres do mundo", as estatísticas vão piscando na tela
da reportagem. "Só 1% dos donos de terra são mulheres; a ONU
calcula em cinco mil os assassinatos de ‘honra’ por ano, a maioria
no mundo muçulmano; 130 milhões de mulheres sofreram corte genital;
21% das mulheres jovens de Gana disseram que sua iniciação sexual
foi pelo estupro."
O
jornalista Nicholas Kristoff, um especialista no tema, e Sheryl
WuDunn dizem que o mais importante desafio moral no século XIX era
a escravidão, no século XX foi o totalitarismo, no século XXI é
a violência contra a mulher. Nenhum país pode dizer que o problema
está superado. Em todos, há muito a fazer.
Recentemente
um amigo me perguntou se eu ainda era feminista e disse que pensava
que eu estava além de tudo isso, por ser uma mulher bem-sucedida.
Sonho estar além de tudo isso. Mas, não sem as outras. Não sem todas
elas.
Renata A. Reis
Advogada
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