Carta Manifesto
da Articulação das Mulheres Brasileiras
Por
mim, por nós e pelas outras
Não à violência contra a mulher
A
aprovação da Lei Maria da Penha foi um avanço ao tornar crime a
violência contra as mulheres. Entretanto, não haverá segurança de
fato, enquanto prevalecer a cultura que legitima o poder do homem
sobre a mulher, em relações hierarquizadas nas quais é frequente
o uso da violência, por parte dos homens, para impor sua vontade.
No
primeiro semestre de 2010 foram noticiados vários casos no Estado
do Rio de Janeiro, sendo o mais recente o desaparecimento de Eliza
Samudio, 25 anos, ex-namorada que vinha tentando provar que o goleiro
do Flamengo, Bruno, era pai de seu filho.
Em
outubro do ano passado, Eliza Samudio apresentou queixa contra Bruno
na Delegacia de Atendimento à Mulher (Deam) de Jacarepaguá, por
sequestro, ameaça e agressão. Em seu depoimento afirmou que Bruno
e dois amigos a obrigaram a ingerir remédios abortivos e que o goleiro
fez ameaças com uma arma apontada para sua cabeça.
Na ocasião, o laudo do Instituto Médico Legal apontou "vestígios
de agressão". A delegada Maria Aparecida Mallet chegou a pedir
medidas protetivas que impediam Bruno de aproximar-se mais do que
300 metros com relação a Samudio e sua família.
As providências tomadas pela vítima, não foram suficientes para
proteger sua vida, e Samudio encontra-se desaparecida há mais de
3 semanas. A notícia vem dominando a imprensa.
Entretanto,
outros casos de violência praticada por companheiros contra mulheres
vêm à tona ao mesmo tempo:
*Orestina Soares, de 53 anos, foi morta a pedradas por seu namorado
em Duque de Caxias;
*Antônia Eliane Farias, em novembro do ano passado, foi torturada
por seu ex-marido com mais de 30 facadas pelo corpo e em conseqüência
está obrigada a usar próteses e caminhar com a ajuda de muletas;
*Dayana Alves da Silva, 24 anos, morreu após dois meses de internação,
em conseqüência de queimaduras provocadas por seu ex-marido enquanto
trabalhava, no Engenho de Dentro. Esta jovem já havia registrado
três ocorrências contra o ex-marido em uma DEAM, inclusive no dia
anterior ao crime, sem que qualquer providência fosse tomada.
Temos
acompanhado estarrecidas o caso ocorrido em São Paulo, do desaparecimento
e assassinato de Mércia Nakashima, em que o principal suspeito é
seu ex-namorado.
Em
Lauro de Freitas, Bahia, no dia 17 de abril, Mônica Peixinho, 28
anos, foi encontrada morta com um tiro na nuca. O principal suspeito
do assassinato é seu companheiro, que continua solto.
Estes
e tantos outros casos de violência contra mulheres Brasil a fora,
que na maior parte das vezes não são noticiados pela grande imprensa,
atestam que a segurança para nós mulheres, depende da aplicação
da Lei Maria da Penha sem exceções. Atestam também que esta indigna
realidade não mudará enquanto persistir a impunidade dos criminosos
e a banalização desses eventos; enquanto não houver acesso a profissionais
capacitadas (os) para um atendimento digno e eficiente para as vítimas
que chegam às DEAMS com sua denúncia, reunindo uma coragem que muitas
vezes lhes falta; enquanto o Estado não for capaz de garantir a
segurança das mulheres que tentam romper o ciclo de violência.
No
Brasil, torna-se imperativo que as medidas protetivas sejam efetivamente
implementadas. As mulheres têm o direito de contar com a proteção
da Polícia, e com o acompanhamento jurídico e psicológico por parte
do Estado. Faz-se urgente a criação dos Juizados Especiais de Violência
Doméstica e Intrafamiliar como ferramenta essencial para coibir
estes casos. Estas são medidas previstas na Lei Maria da Penha,
que não estão sendo implementadas.
É
tempo de questionar a cultura e os valores, cotidianamente ensinados
em nossa sociedade, de que os corpos e as vidas das mulheres possam
estar ‘a disposição de homens, sejam estes pais, padrastos, amantes,
namorados, amigos, companheiros...
Até
quando nossa sociedade aceitará essas injustificáveis violências,
agressões, torturas e mortes de mulheres? Até quando permitiremos
que o relacionamento amoroso seja usado como justificativa para
manter posse, poder e domínio sobre as mulheres?
Uma
velha frase feminista infelizmente não perdeu sua atualidade: QUEM
AMA NÃO MATA!
Em
nossa sociedade está provado: O MACHISMO MATA!!!
Por
isso devemos nos unir e espalhar por todos os cantos deste país:
Basta de machismo! Basta de violência! Basta de mortes!!
POR
MIM, POR NÓS E PELAS OUTRAS: NÃO À VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER!
Rio
de Janeiro, 30 de Junho de 2010.
ASSINAM:
Articulação
de Mulheres Brasileiras – AMB
Asplande – Assessoria e Planejamento para Desenvolvimento
Casa da Mulher Trabalhadora – CAMTRA
COMZO – Conselho de Mulheres da Zona Oeste
Instituto Equit – Gênero, Economia e Cidadania Global
REDEH – Rede de Desenvolvimento Humano
|